Sérgio Botelho – A foto que ilustra o texto de hoje, de 1908, tem, à esquerda, o antigo conjunto jesuítico, e à direita a atual Praça João Pessoa, então, Praça Comendador Felizardo, cercada por um gradil que depois foi parar no Cemitério Senhor da Boa Sentença. Os bondes da foto são de tração animal.
No último prédio do conjunto jesuítico, parede e meia com a Igreja da Conceição dos Militares, derrubada no final dos anos 1920, funcionava até 1937 o Lyceu Paraibano. 15 anos após a foto, foi esse o cenário onde ocorreu uma desventura que uniu amor e rigorismo moral, dois elementos incompatíveis.
Na tarde do sábado, 22 de setembro de 1923, o estudante do Lyceu, Sady Castor, 27 anos, esperava a saída da normalista Ágaba Gonçalves de Medeiros, 17, em frente à Escola Normal. A referida casa de ensino, onde Ágaba estudava, existia no edifício que atualmente abriga o Tribunal de Justiça da Paraíba.
Em determinado momento, o guarda civil n.º 33, Antônio Carlos de Menezes, destacado para policiar o entorno do colégio feminino, o abordou. A discussão terminou com um tiro fatal no abdômen de Sady, que caiu junto ao gradil da praça. Amigos e professores o socorreram, mas ele morreu horas depois.
O diretor da Instrução Pública (hoje, secretário de Educação), João Milanez, havia estabelecido uma tal “linha da decência”. Com base nessa “linha”, pediu ao Chefe de Polícia (atualmente, secretário de Segurança) Demócrito de Almeida, um guarda fixo para impedir as aproximações entre moças e rapazes. Foi ele.
Quinze dias depois do infausto acontecimento, Ágaba suicidou-se ingerindo veneno; carta encontrada após a morte não deixou dúvida sobre a decisão da jovem. Em todos os seus contornos, Ágaba e Sady personificaram uma tragédia pessoense de fortes ingredientes shakespearianos.
Há um filme em gestação na cidade.
*Sérgio Botelho é jornalista, escritor, memorialista e membro do IHGP.