quarta-feira, 11 de março de 2026

Ainda os estádios

10, março, 2026

Sérgio Botelho – Os acontecimentos verificados na tarde do domingo, 9 de março de 1975, quando da inauguração do Almeidão (batizado como Estádio Ernani Sátyro), repercutiram na mídia durante toda a semana.

Ernani, que deixaria o governo no sábado 15, quando deveria tomar posse o novo governador Ivan Bechara, já escolhido pelo regime, insistia na tese de que comunistas haviam sido os responsáveis pela bomba no estádio.

Como resultado, tínhamos dois estádios inconclusos, ambos homenageando o governador em fim de mandato, e inquéritos abertos para verificar sobre possível responsabilidade pela bomba, que era de fabricação caseira.

Bronca mesmo seria herdada pelo novo mandatário estadual, já que teria de encontrar uma forma legal, então inexistente, para pagar a construção das obras. Simplesmente, não havia verba nem jeito para isso.

Quem conta o episódio em livro é o historiador Francisco Sales Cartaxo Rolim, secretário de Planejamento do governo Bechara, que bateu às portas de entidades financeiras fora do estado, todas inapelavelmente fechadas.

No livro “Morticínio Eleitoral em Cajazeiras e Outros Escritos”, entre diversos temas históricos importantes, Cartaxo descreve o dobrado que teve de cortar para conceber meios pelos quais o governo conseguisse pagar os estádios.

Para piorar a situação, o novo presidente nomeado pela ditadura, Ernesto Geisel, apesar de sua história com a Paraíba, não alimentava o mesmo entusiasmo pelo futebol que o seu antecessor Garrastazu Médici.

Em meio às incertezas, o desespero bateu entre dirigentes da empresa responsável pela construção, havendo até o caso de um infarto. A situação era muito complicada.
“Ao final, a solução para os estádios foi simplificar o projeto, gigantesco para a época, concluir com recursos próprios recorrendo a artifícios legais de transferir verbas de outros projetos do orçamento estadual”, explica Cartaxo.

Os louros pelos estádios ficaram com o governo anterior, cabendo a Ivan Bechara o direito de mudar o nome do estádio de Ernani Sátyro para Almeidão, em homenagem a José Américo de Almeida Filho. Uma outra história.


*Sérgio Botelho é jornalista e escritor
https://paraondeir.blog/ainda-os-estadios/