José Trindade*
Em 2003, ocorreu um evento já folclórico na história do futebol brasileiro: o anúncio, pela diretoria do Flamengo, do técnico Waldemar Lemos, irmão do antecessor, demitido poucas horas antes, Oswaldo de Oliveira. Em seguida ao seco anúncio (“o novo técnico do Flamengo é o Senhor Waldemar”), sob protestos e xingamentos de torcedores presentes no anúncio, o repórter Cícero Melo, perplexo e consternado, só conseguia repetir, quase balbuciando: “Por que Waldemar?”. A pergunta ecoa até hoje no imaginário dos amantes do futebol brasileiro.
Essa pergunta sempre precisa ser feita no futebol: por que causa, motivo, razão ou circunstância a diretoria, o treinador ou a confederação tomaram esta ou aquela decisão? Em convocações para a copa do mundo, não é diferente. Por que Ronaldo, e não Romário, em 2002? Por que Grafite e Josué, em 2010, em lugar de Ronaldinho Gaúcho e Neymar?
Quais são, então, os “porquês”, em 2026?
Primeiramente, por que Danilo (do Flamengo)? Gosto muito do futebol de Danilo e da serenidade que ele sempre demonstra em campo, mas por que preterir zagueiros “europeus” em favor de um “semi-reserva” do Flamengo? Nas “datas-Fifa” anteriores, mesmo com diversas contusões de integrantes do sistema defensivo, Danilo não jogou em momento algum. Se um jogador, de idade avançada e físico já desgastado pelo tempo, não era confiável para atuar em amistosos, por que levá-lo para a Copa do Mundo, torneio de tiro curto e de alta intensidade?
Por que Alex Sandro? Essa pergunta é mais fácil de responder: pela absoluta falta de laterais-esquerdos confiáveis produzidos pelo país nos últimos anos. Por que Paquetá? Porque é um excelente jogador, com experiência recente na Europa, no auge físico e de idade. Por que Léo Pereira? É controverso, mas, para mim, por ser o melhor e mais regular zagueiro das últimas três temporadas do futebol brasileiro, pelo menos.
Por que Vini Jr. e Raphinha? Porque, com a atual escassez de craques (especialmente no ataque), a seleção brasileira não pode se dar ao luxo de deixar de convocar titulares do Real Madrid e do Barcelona (desde que não sejam constantemente prejudicados por lesões, como Éder Militão). Por que Igor Thiago? Porque a eficiência de ser vice-artilheiro da badalada Premier League jogando em time mediano (e bota mediano nisso) como o Brentford precisa ser premiada. Por que não João Pedro, destaque do Chelsea? Resposta: “Porque Neymar”, como se fosse um “porque sim”.
Mas por que Neymar? Se for pela esperança de que seu talento apareça, sinto dizer, mas esqueça, Ancelotti. O talento, por maior que seja, costuma se esconder quando encontra pernas cansadas, músculos subdesenvolvidos, falta de ritmo e de preparo físico. Se for para se livrar da pressão da imprensa e da “sociedade”… não acredito que um italiano multicampeão precisaria se submeter a esse tipo de coisa. Se for para ter alguma blindagem para o elenco, um jogador que seja para-raio de críticas, a estratégia pode fazer algum sentido.
Se for pela esperança de repetir a mística de Ronaldo em 2002, que voltou de grave lesão para ser artilheiro da Copa, não resta nada a fazer a não ser apelar para as forças superiores e desconhecidas do universo. Fato é que, à exceção do fraquíssimo Haiti, a tendência é que Neymar não consiga ser decisivo em nenhum jogo disputado pelo Brasil na Copa de 2026.
*José Trindade é professor universitário e Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados