Sérgio Botelho – “Às alegrias juntam-se as tristezas, e o carpinteiro que fabrica as mesas faz também os caixões do cemitério!”. Assim poetiza Augusto dos Anjos em Contrastes, numa alegoria onde se chocam a mesa onde se celebra a vida e o cemitério onde se pranteia sua extinção.
A perene adversidade da morte gera, além da dor, um grande transtorno para os que seguem vivos: o descarte dos corpos. No mundo ocidental tem prevalecido a opção pelo enterramento, embora tenha avançado muito a prática da cremação.
No Brasil Colônia e Imperial o sepultamento era a forma absolutamente predominante. Mesmo entre os indígenas, os donos originários do pedaço, e entre os pretos, para o Brasil trazidos à força.
Os indígenas, enterrados, como sempre, em suas terras ancestrais. Os brancos mais ricos, no interior das igrejas católicas, e os mais pobres, nos terrenos a elas adjacentes. Os pretos, onde desse e conviesse.
Em João Pessoa é possível encontrar expressivo número de catacumbas em igrejas antigas, como as de Santo Antônio, no conjunto franciscano, de Nossa Senhora do Carmo, no núcleo carmelita, e de Nossa Senhora de Montserrat, na quadra beneditina.
Porém, a igreja que mais serviu de local, até o Século XIX, para sepultamento coletivo na atual cidade de João Pessoa foi a da Santa Casa da Misericórdia, em área entre as atuais ruas Duque de Caxias e Visconde de Pelotas, e o Ponto de Cem Reis de hoje.
Na região, além da igreja havia hospital, abrigo e cemitério. Então, na segunda metade dos anos 1800 foi construído um espaço sepulcral, de duração efêmera, na região de Cruz do Peixe, da mesma Santa Casa, e o Cemitério Senhor da Boa Sentença, na cidade baixa.
Estabelecido na década de 1850, inicialmente sob a gestão da Santa Casa, hoje o Cemitério Senhor da Boa Sentença, gerido pelo poder municipal, é o maior e mais antigo campo de sepultamento da cidade, em função contínua.