quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Mário de Andrade e a virtuose do ganzá

5, janeiro, 2026

Na noite de 27 de janeiro de 1929, o celebrado paulista Mário de Andrade, autor de Macunaíma, hospedou-se no Hotel Luso-Brasileiro, levado por José Américo, Ademar Vidal e Silvino Olavo, na então cidade da Parahyba. Após o hilário susto com a aranha no quarto, que mencionei no post deste domingo, 4, ele foi a Tambaú, iniciando suas pesquisas etnográficas de campo.

Ele não dá detalhes sobre o meio de deslocamento àquele então longínquo espaço ainda não devidamente urbanizado de João Pessoa. Mas já havia a Epitácio Pessoa, embora em leito de terra (com tráfego mais facilitado por não ser um tempo chuvoso). Enfim, ele contava com o apoio do então presidente do estado, João Pessoa.

É de se anotar ainda que, com atuação destacada na orla marítima, o santa-luziense João Maurício de Medeiros já havia cumprido seu período como prefeito da capital (1926-1928), com melhorias tanto no acesso a Tambaú quanto nos deslocamentos locais.

Na orla, se deparou com uma roda de coco, parte de seus objetos de estudo. Abro espaço para sua descrição: “…topei com os sons dum coco. O que é, o que não é: era uma crilada {algazarra} gozosa dançando e cantando na praia. Gente predestinada pra dançar e cantar, isso não tem dúvida”.

E continuava: “Sem método, sem os ritos coreográficos {se referindo ao folclore estilizado} do coco, o pessoalzinho dançava dos cinco anos aos treze, no mais! Um velhote movia o torneio batendo no bumbo e tirando a solfa. Mas o ganzá era batido por um piazote que não teria seis anos, coisa admirável. Que precocidade rítmica, puxa!”

Mais admirado ainda ele ficou quando o menino, cansado, passou o ganzá a uma menina. “Essa teria oito anos certos mas era uma virtuose no ganzá. Palavra que inda não vi, mesmo nas nossas habilíssimas orquestrinhas maxixeiras do Rio, quem excedesse a paraibaninha na firmeza, flexibilidade e variedade de mover o ganzá. Custei sair dali”.

Essa era a João Pessoa de outras épocas, cheia de ancestralidades que hoje não existem mais, assim, de forma tão espontânea e virtuosa.