Lembro-me bem da época em que os fogões a carvão dominavam as cozinhas de João Pessoa. Na esquina das ruas Treze de Maio e Elizeu César (fundos da atual Agência Cabo Branco, da Caixa), por exemplo, havia a carvoaria dos pais do saudoso amigo Vitanael, que estudou no Pio XII e chegou a Oficial da Reserva do Exército, onde a gente, que morava ali perto, costumava comprar carvão.
E o encarregado da tarefa normalmente éramos nós, meninos. O carvão era vendido em sacos de estopa, a granel, ou papel grosso, em frações. Como as pedras eram irregulares, nem o volume nem o peso ficavam bem distribuídos, dificultando o transporte. Os fogões a carvão urbanos eram geralmente de ferro fundido, com compartimentos para o carvão e saídas para a fumaça.
Acendê-lo era tarefa trabalhosa, exigindo paciência, habilidade e até alguns truques domésticos. O processo envolvia várias etapas e podia levar um tempo considerável, especialmente quando o carvão estava úmido e demorava mais para pegar fogo. Antes de tudo, era preciso limpar os restos de cinza do uso anterior, garantindo a passagem de ar para facilitar a combustão. Se o carvão não estivesse bem seco, então a fumaça dobrava, obrigando a pessoa a mexer no fogão repetidas vezes.
Além do mais, era preciso ficar de olho para evitar que o fogo apagasse no meio do processo. Essa tarefa era diária, a cada café da manhã, almoço ou jantar, o que exigia das donas de casa e eventuais empregadas domésticas um esforço sem trégua. Como detalhe, muitos fogões a carvão tinham pequenos compartimentos inferiores, onde as donas de casa aproveitavam o calor residual das brasas para assar sementes, castanhas de caju, pão endurecido e bolachas murchas.
Recordo bem o acontecimento representado pela chegada, na década de 1960, dos fogões a gás liquefeito de petróleo. A primeira das empresas fornecedores do GLP, em João Pessoa, foi a Pibigás, quando os fogões a carvão, e sua marcante presença, começaram a desaparecer dos lares da cidade.