Sergio Botelho – Optando por me referir ora em diante a Arruda Câmara, assim mesmo, sem o “da”, conforme consagrado pelo costume, a partir de homenagens post mortem (em capas de livros reeditados, vigora o Arruda da Câmara), vamos falar neste texto sobre o paraibano enquanto cientista. Amparado na batina de carmelita, que lhe dava a possibilidade de suplantar a pobreza e sonhar com voos mais altos na busca de educação, Arruda Câmara deixou Goiana na direção da Europa.
Passou pela histórica e prestigiada Universidade de Coimbra com destino à Universidade de Montpellier, na França. Foi nessa última instituição que se graduou em Medicina, com os interesses voltados para a ciência natural.
De volta ao Brasil, dedicou-se ao exame direto da natureza nordestina e ganhou lugar de destaque entre os naturalistas. Nesse universo, o episódio do Areópago de Itambé diz mais sobre suas convicções ideológicas.
A Biblioteca Nacional Digital o apresenta, sem meias palavras, como um estudioso de primeira grandeza, lembrando que ele classificou a flora paraibana e produziu trabalhos de botânica, zoologia e mineralogia. Como botânico, Arruda Câmara teve um olhar muito ligado ao Nordeste. Segundo a Biblioteca Nacional, ele percorreu Pernambuco e Piauí entre 1794 e 1795, esteve na Paraíba e no Ceará entre 1797 e 1799, e no Maranhão entre 1799 e 1800.
Nessas andanças, observou plantas, reuniu informações sobre a vegetação regional e trabalhou. Suas obras científicas, segundo registro da Biblioteca Nacional são: Memória sobre a cultura do algodoeiro; Dissertação sobre as plantas do Brasil; Discurso sobre a vitalidade da instituição de jardins nas principais províncias do país; Aviso aos lavradores sobre a suposta fermentação de qualquer qualidade de grãos ou pevides para aumento da colheita; Memórias sobre as plantas de que se podem fazer baunilha no Brasil; e Memórias sobre o algodão de Pernambuco.
Arruda Câmara foi um pioneiro. Um naturalista que ajudou a colocar a vegetação brasileira no mapa da ciência e a mostrar que o país podia produzir conhecimento científico sobre si mesmo.
*Sérgio Botelho é jornalista e escritor. https://www.instagram.com/p/DWOKSp0joAy/?igsh=eXZlZWEzcm5scDF2