O lança-perfume em carnavais dos tempos de outrora
11, fevereiro, 2026
Sérgio Botelho – Em 6 de fevereiro de 1937, um sábado de Carnaval, o jornal A União publicou nota divulgando o Concurso da Taça Rodo, que premiaria o melhor bloco da folia pessoense daquele ano.
“Rodo” referia-se ao patrocínio da Companhia Chimica Rhodia Brasileira, de São Paulo, maior fabricante de lança-perfume no Brasil, que dominou os carnavais de salão, nos clubes, e os corsos, nas ruas, até 1961, quando o produto foi proibido no país.
Tecnicamente, o lança-perfume era um aerossol pressurizado de cloreto de etila que, ao ser acionado, vaporizava instantaneamente, lançando no ar um jato frio e volátil.
O jato não apenas produzia efeitos físicos e neurológicos, quando inalado, como também liberava um cheiro adocicado e efêmero. A ação, geralmente direcionada às nucas (popularmente conhecidas como cangotes), era marcada pela sensualidade, misturando a surpresa, o frio intenso do éter ao tocar a pele e o perfume que se espalhava no ar.
O anúncio do prêmio revela a presença da empresa produtora do lança-perfume no Carnaval pessoense, a ponto de custear premiações para os desfiles de blocos da cidade. Como curiosidade da nota, é importante registrar o propósito de a taça premiar o “bloco que maior onda arrastar e maiores e mais endiabradas manobras e evoluções executar em pleno CAMPO DE BATALHA”.
A comissão julgadora foi composta por jornalistas importantes da época, como Orris Soares, Abelardo Jurema, Alves de Mello, Anchises Gomes, Durval de Albuquerque e Ernani Baptista, além de Francisco Salles.
A proibição do lança-perfume foi assinada pelo então presidente Jânio Quadros, no ano já referido de 1961, sob o argumento de que o abuso poderia causar lesões no sistema nervoso central, problemas respiratórios e cardiovasculares, além de risco de parada cardíaca e danos irreversíveis ao cérebro.
Contudo, a utilização do lança-perfume, sustentada pelo contrabando e pela venda clandestina, ainda durou cerca de três carnavais no Brasil.