O teatrólogo José Bezerra, As Nações Unidas e o Salão Império
9, fevereiro, 2026
Sérgio Botelho – A respeito do prédio das Nações Unidas, no Ponto de Cem Reis, sobre o qual escrevi, neste domingo 8, recebi do amigo teatrólogo, artista plástico e escritor José Bezerra, as seguintes observações, que seguem reproduzidas, na íntegra: “Eu sempre detestei esse tal prédio das Nações Unidas, em João Pessoa, porque, para construí-lo, tiveram que derrubar dois pontos que foram marcantes na transição da minha infância para a adolescência.
O primeiro era a banca de revistas, que ficava ao lado da Praça Vidal de Negreiros. Correu o boato de que ali era a única banca da cidade que vendia balas Seleções, com a figurinha do elefante — estampa que, acredito, nunca foi impressa, para que ninguém enchesse os álbuns e nunca ganhasse os prêmios prometidos. Era também o ponto de encontro mais procurado da cidade para a comercialização, a troca, o escambo das balas Seleções.
Os bondes vinham lotados de crianças, adolescentes e até adultos de todos os bairros da cidade — Oitizeiro, Cruz das Armas, Jaguaribe, Róger, Tambiá, Torre, Mandacaru, Expedicionários (em construção)… e mais não havia. Alguns dos frequentadores traziam até marmitas.
O outro ponto de sedução destruído para a elevação do citado edifício foi o Salão Império, onde aprendi a jogar sinuca. Ficava na Padre Meira, mas com a entrada principal voltada para o terreno baldio, onde se reunia a maloca das balas Seleções. Foi ali que aprendi a jogar sinuca e enterrei dois anos de repetência na primeira série do ginásio, no Liceu, situado ali bem pertinho. Gazeava as aulas para procurar elefantes e me viciar em sinuca, no Ponto de Cem Réis.
Meu pai nunca entendeu que aquele meu comportamento não era apenas irresponsabilidade… era o prenúncio de um desabrochar poético, lírico, sonhador — de um hoje, octogenário, eterno aprendiz de poeta provinciano.
Que sonha ainda em escrever uns dez romances, sua biografia, reeditar toda a sua obra e ganhar sozinho uma Mega-Sena da Virada… mesmo sabendo que, para essa última, só tem uma chance de ganhar entre 1.500.063.860 (um bilhão, cinquenta milhões, sessenta e três mil, oitocentas e sessenta) chances de perder.
Pelo menos, há uma chance. Bem mais fácil do que achar um elefante no Ponto de Cem Réis, porque a imagem do elefante nunca foi impressa.”