quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Um editorial de 100 anos contra o Jogo do Bicho na Paraíba

4, fevereiro, 2026

Sérgio Botelho* – Em 4 de fevereiro de 1926, o diretor efetivo do jornal A União, Carlos Dias Fernandes, do alto de um prestígio intelectual largamente reconhecido até além do estado, assina colérico e moralista artigo de primeira página contra o Jogo do Bicho na Paraíba.

Sob o título “Do ‘bicheiro’ à Cartomante”, o texto editorial usa a crítica ao jogo do bicho com observações sobre religiosidade, costumes, “superstições” e a vida urbana, compondo um quadro de preocupações sociais do período. Para o autor, o jogo infecta o caráter, corrompe e “anula” a alma.

Criado no final do Século XIX, no Rio de Janeiro, já capital da República, por um certo Barão de Drummond, o Jogo do Bicho é uma das manifestações culturais e contraventoras mais longevas do Brasil, nascido como uma estratégia de marketing para salvar um negócio privado de utilidade pública da falência.

Fui saber em minhas pesquisas que, dono de um Jardim Zoológico, no Rio, e diante de uma grave crise financeira após o fim dos subsídios imperiais, o barão buscou uma forma de atrair público. Então, escolheu 25 animais e os associou a sequências numéricas de 00 a 99.

Na entrada do zoológico, o visitante recebia um bilhete com a figura de um bicho. Ao final do dia, o Barão revelava o animal escolhido em um quadro. Quem tivesse o bicho correspondente ganhava um prêmio em dinheiro, que chegava a ser 20 vezes o valor da entrada.

Hoje, 100 anos depois daquele editorial de A União, o jogo do bicho continua em cada esquina de todas as cidades da Paraíba. Melhor fez o ex-governador João Agripino (1966-1971), que legalizou o jogo e passou a cobrar imposto sobre o negócio, trazendo os bicheiros para a luz do dia, da segurança pública e da contabilidade governamental.

*Sérgio Botelho é jornalista e escritor

https://paraondeir.blog/jogo-do-bicho-na-paraiba/ ‎