Neste domingo (25) é celebrado o Dia Nacional da Saúde Bucal, instituído pela Lei nº 10.465, de 2002, data que coincide com o Dia do Cirurgião-Dentista. A data chama atenção para um alerta do Conselho Federal de Odontologia (CFO): aparelhos ortodônticos falsos, vendidos em lojas virtuais e usados sem indicação de dentista por jovens que seguem modismos das redes sociais, podem causar danos à saúde bucal que, em muitos casos, são irreversíveis.
Para o ortodontista Dr. Breno Azevedo, o problema começa na forma como esses produtos são vistos.
“Muita gente enxerga o aparelho como um acessório, mas ele é um tratamento de saúde. Cada dente que se movimenta precisa de diagnóstico e de força controlada. Sem isso, o que parece enfeite pode virar um problema permanente”, afirma.
Segundo o CFO, os kits trazem braquetes, fios, adesivo dental e borrachinhas coloridas e são vendidos por preços muito abaixo dos praticados no mercado. Os fios são, muitas vezes, de cobre ou até cerdas de vassoura, e os braquetes, falsos, são fixados com colas inadequadas. O conselho observa, há alguns anos, uma onda de venda desses aparelhos. A venda é irregular, e quem instala pode responder por exercício ilegal da Odontologia, crime previsto no art. 282 do Código Penal.
Entre os riscos listados pelo conselho estão a perda do osso de sustentação dos dentes, a reabsorção da raiz, a mobilidade e a queda de dentes, dores na face e na articulação da mandíbula, infecções e até asfixia, se as peças se soltarem por completo. O Dr. Breno explica por que o dano costuma ser tão sério.
“Quando a força é aplicada sem critério, o dente pode perder osso de sustentação, a raiz pode ser reabsorvida e a mordida pode se desalinhar. Muitas vezes o paciente só percebe quando o dano já está instalado”, alerta.
A cola usada para fixar os aparelhos pode prejudicar o esmalte e ferir a mucosa, e o material pode conter substâncias tóxicas, como cádmio e chumbo. A Anvisa determina que todos os produtos usados em tratamentos que entram em contato com o corpo humano sejam regularizados na agência. Para um especialista em Odontologia Legal ouvido em nota do CFO, o Código Penal permite cogitar ainda os crimes de lesão corporal (art. 129) e de perigo para a vida ou saúde de outrem (art. 132).
Ao falar com os jovens, o ortodontista destaca que o desejo por um sorriso bonito não precisa passar por esse caminho.
“O jovem quer o sorriso bonito, e isso é legítimo. O caminho é procurar um dentista, que vai avaliar se existe indicação de aparelho e qual o melhor tratamento. Saúde não se resolve com kit comprado na internet”, diz.
O cuidado com o paciente vai além dos aparelhos falsos. Na clínica do Dr. Breno, a maior procura hoje está em ortodontia, implantes e tratamentos estéticos, como clareamento, facetas e lentes de contato. A alta procura, porém, convive com o que ele considera o principal problema da ortodontia hoje: tratamentos que não chegam ao fim. Para o dentista, o problema surge quando o foco deixa de ser trazer uma solução para o paciente.
“Muitas vezes o paciente passa por um tratamento que seria de dois anos, vai para quatro, cinco, seis anos, e é um tratamento que não finaliza nunca. Esse é o grande problema da ortodontia hoje”, diz.
Ele também alerta para o excesso de indicações. Segundo o Dr. Breno, parte dos profissionais acaba superindicando procedimentos que não têm necessidade.
“Isso muitas vezes acaba causando iatrogenias, que são doenças ou problemas para o paciente que ele não deveria ter enfrentado”, explica.
Como se proteger ao cuidar dos dentes?
- Aparelho só com dentista. Não compre aparelho em camelô, na internet ou em salão, nem aceite instalação por quem não é dentista. O tratamento ortodôntico só deve ser feito com avaliação clínica e acompanhamento de um cirurgião-dentista ortodontista.
- Denuncie. Quem suspeitar de exercício ilegal pode denunciar ao Conselho Regional de Odontologia (CRO) do seu estado. Anúncios de produtos odontológicos irregulares em lojas virtuais podem ser denunciados ao CFO pelo e-mail ouvidoria@cfo.org.br, com o link da oferta.
- Fique atento aos sinais. Dor na face ou na mandíbula, gengiva retraída e dentes que ficam moles pedem avaliação imediata de um cirurgião-dentista.
- Confira o registro. Peça o nome completo e o número de inscrição no CRO e consulte na página de consulta pública do CRO do seu estado, que mostra se o registro está ativo.
- Exija o orçamento por escrito. O Código de Defesa do Consumidor (art. 40) prevê orçamento prévio com valores, condições de pagamento e datas de início e término do serviço. O Código de Ética Odontológica também prevê que os honorários sejam informados previamente ao paciente.
- Pergunte a previsão de duração. Quanto tempo o tratamento deve durar e o que será feito em cada manutenção, e peça que isso conste no contrato.
- Entenda cada procedimento. Peça que expliquem por que ele é indicado, quais os riscos e as alternativas. O Código de Ética considera infração propor tratamento desnecessário. Na dúvida, procure uma segunda opinião.