quinta-feira, 3 de abril de 2025

Desvirtuamento da fé

20, março, 2025

Há casos envolvendo religiosos chegados à Paraíba, nos tempos do Brasil Colônia, até em séculos distintos daquele período histórico, que põem em dúvida as reais motivações espirituais de muitos desses prelados. Há o sinistro caso conhecido como “Crime do Frade”, em que um certo Frei José de Jesus Cristo Maria Lopes, da Ordem dos Franciscanos, com a ajuda de um negro e de um índio escravizados, matou, empalada, na frente da filha, uma jovem que lhe servia sexualmente.

Estava o frei revoltado por conta de um namoro entre a indigitada moça e um mulato, dizem, lutador de capoeira. O crime, com data de 1801, portanto, nem tão no início da história do Brasil e da própria Paraíba, teria ocorrido junto a uma fonte (a de Santo Antônio, nas proximidades do conjunto franciscano, ou a dos Milagres, hoje, emparedada na atual Rua Augusto Simões, entre a rua da Areia e a Ladeira São Francisco).

Do referido frei, há mais comentários, pois dizem que ele costumava arrancar, impiedosamente, contribuições de sitiantes nos arrabaldes da cidade. Para o convencimento, havia ameaças de penas a serem cumpridas no Inferno ou na Terra, mesmo. Já, na largada, entre as décadas de 1580 e 1590, teve a história do nosso primeiro pároco, o frei beneditino João Vaz Sarlem dos Santos, sobre o qual falamos no post dessa quarta-feira, 19, que, entre outros afazeres, paralelos à atividade paroquial, gostava de aprisionar índios e vendê-los como escravos.

Sarlem, além do mais, costumava se utilizar do terrível poder da Santa Inquisição, para lucrar com eventuais denúncias contra desafetos ou possíveis concorrentes. Com isso, e sabe Deus com o que mais, juntou posses que iam das imediações da matriz de Nossa Senhora das Neves até a Fonte dos Milagres, já citada.

Embora a documentação histórica específica sobre esses e, certamente, outros episódios seja escassa ou muito espalhada, eles refletem padrões mais amplos de abuso de autoridade, exploração e violência associados a figuras religiosas da época. Em comum, o abuso da autoridade temporal da Igreja para enriquecimento próprio.

Na foto, a Fonte dos Milagres, hoje emparedada.