Por muitos anos, ela estava lá. Uma casa de esquina, feita de alvenaria grossa e janelas de madeira nobre. Na parede da frente, cornijas decoradas e um pequeno brasão no alto da fachada. Muita pouca gente sabia exatamente quem morou ali, mas todo mundo entendia que se tratava de uma casa antiga, pertencia à história da cidade. Era tombada. Havia uma pequena placa numa parte da parede, que indicava a proteção oficial.
Um bem histórico. E, de fato, era um marco: resistira à urbanização, aos modismos que vinham e iam. Um pedaço da cidade antiga ali, firme, como quem ainda queria contar uma história. Mas a desgraça se impôs. Primeiro vieram as infiltrações. Depois, os cupins. A janela da frente foi arrancada por vândalos.
O mato subiu pela parede, arrombou os telhados. A cada chuva forte, ainda mais a casa ruía. Até que um dia, ela já não estava mais lá. Foi derrubada, silenciosamente, virando incômodo e triste escombro. Muita gente se espantou. “Mas não era tombada?” Era. E ainda assim, sumiu. O que poucos sabiam é que o crime já havia começado muito antes da demolição. Começou no abandono. Começou quando ninguém cuidou. Quando o responsável – fosse particular ou público – decidiu que era mais apropriado deixar apodrecer do que conservar.
A lei é clara: destruir, inutilizar ou deteriorar um bem tombado é crime. E isso inclui o abandono. Quando se deixa que o tempo e o descaso façam o serviço de corrosão, a responsabilidade existe. E o que mais entristece é saber que todos viram acontecer. Ninguém pôs a marreta, mas muitos se permitiram o silêncio.
Na correria moderna, esquecemos que muitas das alvenarias de uma cidade carregam memória e sentimento. E cada casa, cada fachada com história, cada muro com herança, é parte dela. Quando desaparecem, um pedaço da nossa memória segue junto.
A crônica não trata de um exemplo determinado. Mas há vários deles espalhados pela cidade. Veja só a parede desta casa na Rua da Areia, portanto, no perímetro de tombamento rigoroso.