quinta-feira, 25 de julho de 2024

Fogo no paiol do 15 RI

2, maio, 2024

Nunca foram escutados tantos estouros em João Pessoa, como naquela madrugada. Apurando o ouvido, dava para entender que o barulhão vinha das bandas de Cruz das Armas. Lembro que, dia claro, cessados os estampidos, as famílias trocavam pitacos sobre o que teria ocorrido. Pouca coisa, no entanto, vazou para a opinião pública. A procedência acabou firmada após as informações de gente que residia no ABC, bairro que fica vizinho àquela guarnição federal, também integrado por residências militares.

Segundo relatos posteriores dessas pessoas e, também, das que residiam em Jaguaribe, Cruz das Armas e Oitizeiro, aquele povo viveu momentos angustiantes. As mulheres corriam pelas ruas ainda de camisolas, enquanto os militares se apressavam em chegar ao quartel para tomar parte de alguma providência, vestindo suas fardas pelo caminho. Pouco a pouco, ao menos para essas pessoas mais próximas do inusitado evento, a verdade foi aparecendo. Tudo foi sendo esclarecido (“foi o paiol que pegou fogo!”) com o retorno dos militares às suas casas.

O incêndio do paiol do 15º RI foi certamente um desses episódios que marcaram época em João Pessoa. O pior foi que o acidente, em virtude de todo o quadro irracionalmente ditatorial, no Brasil, quando vigia o famigerado Ato Institucional nº 5, acabou sendo posto nas costas de estudantes que lutavam contra o autoritarismo. Dessa forma, jovens tiveram de responder pela azáfama, debaixo de torturas, sem que nada tivessem a ver com o lamentável acidente.

A parafernália armada em torno do incêndio do paiol do “15”, incluídas as tentativas de responsabilização improcedentes, deixa uma lição que, por força de nossa evolução política, seguimos aprendendo: o valor da democracia. Erros que possam provocar incêndios em quartéis, em qualquer lugar do mundo, existiram e vão continuar existindo. O autoritarismo e suas paranoias é que não devem mais nunca vigorar em nosso país.

(A imagem é meramente ilustrativa)