Sérgio Botelho – Um artigo de Frutuoso Chaves, intitulado Suásticas e outras histórias, publicado no Ambiente de Leitura Carlos Romero, nos conduz a um fato digno de registro memorial, ocorrido há 81 anos em Rio Tinto. Em 18 de agosto de 1945, operários e populares rio-tintenses resolveram invadir propriedades dos Lundgren, família de origem sueca dona de quase a cidade inteira, a partir do complexo industrial Companhia de Tecidos Rio Tinto. Apesar de os Lundgren terem a origem nórdica, havia alemães em cargos técnicos. Em meio à Segunda Guerra, correu a notícia de que Hitler ou já havia estado ou deveria vir a Rio Tinto, ainda, caso fosse vitorioso.
Com o anúncio da rendição japonesa, em 15 de agosto, a prevenção acumulada resultou em quebra-quebra, três dias depois. Os invasores, tomados pela antipatia forjada na guerra, junto a mágoas acumuladas contra os patrões, estavam dispostos a se vingarem.
Em meio à invasão, surgiu um retrato de Hitler na parede, segundo o ex-secretário de Indústria e Comércio da Paraíba, Waldemar Soares Ribeiro, à época dos acontecimentos com 9 anos de idade. Então, alguém, não contou conversa, e mandou dois balaços na fotografia do führer. Conforme o trabalho acadêmico da UFPE “Operários! Uni-vos!: Experiência e formação de classe na Fábrica de Tecidos Rio Tinto (Paraíba, 1924-1945)”, de Eltern Campina Vale, a imprensa, tanto da Paraíba quanto de Pernambuco, cobriu os acontecimentos.
O Diário de Pernambuco apontou o fazendeiro Afrísio Baltar (que tinha disputa patrimonial com os Lundgren), e José de Oliveira Ramos, o Vigarinho (líder sindical), como mentores do conflito, com propósitos queremistas em favor de Getúlio.
O quebra-quebra foi encerrado pelo Exército, que desde 1942 monitorava Rio Tinto, por conta da guerra e dos alemães no local, segundo Eltern.
(Imagem: recorte de notícia do Diário de Pernambuco de 21 de agosto de 1945, reproduzido por Zélia de Oliveira Gominho, em “Cidade Vermelha: a experiência democrática no pós-Estado Novo Recife 1945-1955”).
*Sérgio Botelho, jornalista, escritor e memorialista. https://paraondeir.blog/quebra-quebra/