sexta-feira, 4 de abril de 2025

Rua da Areia e a força da memória

7, março, 2025

A resistência da população a mudanças no nome de determinadas ruas em João Pessoa tem raízes na identidade cultural e na memória coletiva da cidade. Afinal de contas, as ruas não são apenas espaços de circulação, já que carregam histórias, afetos e referências que atravessam gerações.

Quando um nome se consolida no imaginário popular, qualquer tentativa de substituí-lo enfrenta uma barreira natural: a força do costume. Um caso explícito é o da Rua da Areia, na cidade baixa, nome originalmente surgido em função de características intrínsecas locais, ela, uma ladeira, alimentada por outras das mais íngremes da urbe, fazendo com que, em tempos de chuva, houvesse acúmulo de areia em diversas partes do seu curso.

O nome acabou adotado pela população de forma espontânea e se tornou parte do vocabulário cotidiano. Quando autoridades tentaram impor a denominação Barão da Passagem, em homenagem a um dos heróis da Guerra do Paraguai, esbarraram em um problema comum nesse tipo de mudança: a falta de identificação da comunidade com a nova denominação. O título nobre não possuía vínculo emocional com quem transitava por ali diariamente.

E olhe que se passaram anos com a rua sendo chamada de Barão da Passagem, com direito a endereços empresariais e particulares destacados. Contudo, na sucessão do tempo, o povo ignorou a mudança, e o nome oficial acabou revertido ao de outrora. Casos semelhantes ocorreram em outros locais da cidade, especialmente no Centro Histórico, revelando que a memória urbana não é uma construção puramente administrativa, mas também afetiva.

Ruas, como a da Areia, ganham suas denominações porque as pessoas as nomeiam, e não porque decretos tentam impor um título. A resistência popular, organizada ou naturalmente alicerçada no legado, fortalece a identidade local, a preservação da história e a resistência contra tentativas de apagamento cultural ou de imposições sem diálogo.

Na foto, a Rua da Areia.