quinta-feira, 3 de abril de 2025

Varei, bicho!

26, março, 2025

Nesta terça-feira, 25, falamos sobre como uma palavra, no caso, sopa, mudou completamente de campo e passou a significar, ao menos para os paraibanos, o meio de transporte ônibus. A mudança revela a criatividade popular, com forte valor simbólico e afetivo, mostrando como o regionalismo produz expressões populares que carregam emoção, humor e identidade local.

Outro termo já muito usado, no caso, pela juventude pessoense (não tenho notícias de outras paragens da nossa geografia humana) foi “varei”, como interjeição popular de indignação e espanto: “Varei, você só pode estar zonando {outro termo vigente} com minha cara!” (espanto diante de algo absurdo). “Varei, isso é um desaforo!” (indignação com alguma ofensa). “Varei, bicho!”, assim, ligada a outra expressão popularizada por Roberto Carlos, na época, para tratar amigos e circunstantes, podia desaprovar um papo inteiro.

É uma daquelas expressões com muito sabor popular, das que comunicam mais do que apenas palavras, passando um sentimento inteiro em uma única exclamação. Sobre a origem do termo – segundo especulam as IAs da vida -, é possível que “varei” tenha sido uma alteração popular de “varar”, que originalmente significa atravessar algo (como “varar a noite”, “varar uma porta”).

No uso coloquial e emocional, teria se transformado nessa exclamação curta e expressiva, ganhando uma carga de julgamento implícito, como se dissesse: “Isso passou dos limites!” ou “Eu não acredito que isso aconteceu!” Embora não esteja inscrita na linguagem formal com esse sentido, teria passado a ser um vocábulo vivo na trajetória da oralidade popular pessoense, com força e identidade próprias.

Infelizmente, vale lembrar que a origem precisa de expressões orais populares nem sempre é documentada, pois nascem, se transformam e, não raramente, entram em desuso, no cotidiano. E nem sequer ganham espaço em crônicas da época. Contudo, do ponto de vista linguístico, essas transmutações do significado de palavras advindas da oralidade mostram como a língua é viva e moldada pelo cotidiano. Também revelam que há diversas formas legítimas de falar e de nomear as coisas.